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Frank Peretti que o Brasil não conhece

Saiba que Frank Peretti tem muito mais lá fora do que "Este Mundo Tenebroso". Veja quais sucessos dele ainda não deu as caras por aqui.

Leia a resenha de A Negociadora

Um dos grandes sucessos da escritora Dee Henderson é a série O'Malley. Saiba mais sobre esse primeiro livro da série.

Livro impresso "Ilusão: O Poder e o Engano"

Uma ficção cristã de suspense que você não vai para de ler até o final da história. Adquira já o livro impresso publicado pela Upbooks.

Tudo que tenho é Cristo

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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

CONTO: Quando Acaba a Inocência - Naasom A. Sousa

Nesse sábado, dia 22/01/2011, foi o resultado do concurso literário 2010 aqui da cidade onde resido, Paragominas-PA, e ganhei o 2º lugar (categoria conto), com o texto AS REGRAS DO AMOR. No ano anterior, 2009, fiquei em 3º lugar; em 2007 fiquei com a 1ª colocação.
Coloco aqui o conto que ganhou o 3º lugar em 2009.
Espero que apreciem.

 

 

QUANDO ACABA A INOCÊNCIA

 

Eu olhava em seus olhos esbugalhados de terror e temor. Ele estava com os braços estendidos para cima, demonstrando uma total rendição ao gesto que eu fazia. Não conseguia mais olhar para ele sem que aquele arrepio percorresse gélido o meu corpo seminu. Estávamos numa casa de prostituição onde eu trabalhava. Ele estava sentado à beira da cama desarrumada e de cheiro desagradável; eu estava em pé, retesada, com os olhos desaguando em lágrimas. Enfim ele estava diante de mim, indefeso, como assim eu já estivera diante dele muitas vezes. Jurei a mim mesma que quando eu o reencontrasse seria o fim daquela vida de encontros frívolos e o fim da existência dele.

Por fim, fechei os olhos, apertando-os o máximo que eu podia. Esperava apenas o estampido. A arma tremia em minha mão magra e vacilante. Eu tinha vinte e seis anos, estava a ponto de apertar o gatinho... e matar o meu próprio pai.

Naquele momento, em que eu podia sentir o gatilho escorregando, prestes a acionar o mecanismo que expulsaria a bala da arma e concretizaria meu primeiro homicídio, ouvi a voz entrecortada dele a balbuciar palavras quase inaudíveis: "Não faça isso… Francisca… sou seu pai… eu… eu te amo…"

Não me dei conta que deixei afrouxar o dedo e o tiro não saiu naquele instante. Apenas pensei em antes olhar para ele mais uma vez. Tive vontade de sorrir com desdém, mas me contive. Ele já não me conhecia. Foi por isso que tentara comprar uma hora do meu tempo e do meu corpo. Não sabia o que passei, não sabia o que vivi nem o nome que adotei após a sua partida. Não me chamava mais Francisca; todos me conheciam agora por Conceição, a alegre.

Numa fração de segundo foi como se eu retornasse à minha infância e logo me vi indo para a escola com cinco anos de idade. Era meu primeiro dia de aula. Minha mãe me levava pela mão e eu, uma vez ou outra, olhava para cima a fim de fitá-la e sorrir em sua direção para manifestar-lhe minha alegria. Lembrei que, diferente das demais crianças que foram deixadas na sala de aula naquela manhã, eu não chorei. Mamãe sempre me elogiava por isso e se gabava para outras mães perto de nossa casa, vizinhas de fofoca. Eu era feliz.

Eu estava brava. Ainda o tinha sob a mira da arma. Podia ouvir alguns sussurros vindo dos quartos vizinhos. Aquele que um dia fora meu pai continuava imóvel, sabendo que se erguesse a voz morreria de imediato. Limpou a garganta e soprou: "Não faça isso… filha…"

"Não faça isso… filha…", foi o que ele dissera quando aos cinco anos ela levara o caderno para a mesa em que estava servido o almoço. "Nessa casa a hora do almoço é sagrada".

Senti mais uma enxurrada descer de meus olhos. As emoções se manifestando como algo que tinha sido escondido há muito tempo e agora estava eclodindo de forma inesperada.

"Você não sabe o significado de sagrado!" Minha boca e queixo estavam rígidos. Era difícil falar.

"Do que você tá falando?" ele gaguejou acuado.

Fora com essas palavras que ele tentara fazer de escusado minha negação, quando entrara em meu quarto pela madrugada. Eu tinha sete anos. Com movimentos suaves suas mãos tocaram meu corpo ainda pequeno e inexplorado. Assustada eu me retraí. Disse-lhe que aquilo não era bom. Foi então que aquela frase surgiu e grudou em minha cabeça. "Do que você tá falando?". Sem palavras diante do medo que senti ouvi sua próxima sentença: "Vou te mostrar como isso é bom. Você vai gostar".

Eu resisti, mas ele era forte. Ele era meu pai e eu o amava. Amava. Todo sentimento bom que sentia por ele deixou de existir desde aquela noite sombria e terrivelmente dolorosa. Surgiu então o medo, a revolta, o asco. Entretanto, infelizmente, tudo isso não o impediu de visitar minha cama alguns dias por mês pelos anos que se seguiram. Eu dizia que iria contar para mamãe o que ele fazia comigo e, em contrapartida, as ameaças que eu ouvia por parte dele eram capitais. O que mais saia de seus lábios era: "Se fizer isso vou te matar!"

"Se fizer isso vou te matar!" disse eu ainda apontando-lhe a arma. Foi minha reação quando ele olhou para a porta, talvez pensando se eu teria pontaria e agilidade de acertá-lo antes de abri-la e correr para a rua. Eu podia ouvir sua respiração pesada e sentir seu cheiro repugnante. Ainda era o mesmo de dezenove anos atrás.

Há dezenove anos eu tinha conhecido quem realmente era meu pai: um abusador de crianças inocentes; um pedófilo inescrupuloso que havia violado a própria filha. Quando completei onze anos não aguentei mais as humilhações e as ameaças. Contei para minha mãe. Que infelicidade. Ao invés de ficar do meu lado, alcançou uma corda e me açoitou como se faz com um animal de rua. Meu corpo magro ficara todo marcado. Onde estava a mãe que me levara para a escola de mão dada? E a mãe orgulhosa? Minha cabeça era um imenso redemoinho. Cinco anos sendo abusada e minha mãe nem ao menos se dirigiu ao meu pai com tom de suspeita. À noite ela revelou a ele o que eu dissera. Ouvi toda a conversa detrás da porta, tremendo. Eu iria ser morta, afinal. Não dei chance a ele. Fugi naquela mesma noite pela janela do meu quarto, somente com algumas roupas, e nunca mais voltei para casa.

Corri até ficar exausta. Planejei ir para algum lugar bem longe de onde meus pais moravam. Estava decidida. Continuei, pelo resto da noite, andando pela estrada que me levaria à outra cidade. Fraca pela surra e pela fome que sentia, desmaiei no caminho.

Acordei assustada e atordoada. Notei que estava num quarto sem muito conforto. Logo uma mulher robusta entrou e contou-me que me achara desmaiada e me trouxera para sua casa. Disse que seu nome era Matilda. Por sorte ela morava na cidade vizinha. Perguntou-me o que acontecera comigo e, desesperada, expus-lhe os cinco anos de abusos que sofri, o episódio com minha mãe e, por fim, minha fuga. Ela disse que me ajudaria com o que eu precisasse. Disse-lhe que apenas me ajudasse a ir para o mais longe possível da minha cidade. Por um momento ficou pensativa e então deu de ombros. Falou que era uma mulher solitária e que não conhecia muitas pessoas longe dali. Porém sabia de alguém que poderia ficar comigo por algum tempo, mas talvez eu não gostasse. Disse-lhe que qualquer canto era melhor do que estar no mesmo lugar que meu pai. Ela revelou então que a pessoa que poderia me acolher numa cidade mais distante era dona de um prostíbulo. Não pensei muito e aceitei. No dia seguinte partimos para encontrar a tal mulher.

Bela era o nome dela. Ao me ver e saber da minha história se compadeceu e disse que me ajudaria. Por um mês Bela me tratou bem e me fez conhecer todas as garotas que trabalhavam para ela assim como me contava os fatos que ocorriam debaixo do teto que dali em diante eu passaria a morar. Não me sentia bem com o que acontecia ali, mas não revelei isso a ninguém. Até que um dia Bela me pediu que fizesse um grande favor a ela: entrasse num dos quartos e fizesse companhia a um homem especial que…

Não esperei ela terminar o pedido. Sai correndo para longe daquela casa. Fiquei nas ruas como uma mendiga. Passei fome, fiquei suja, não tive lugar para ficar. Não tive escolha. Voltei para a casa da Bela. Comecei a me prostituir com treze anos. Em minha mente uma sentença passou a ser construída: "Era tudo culpa do meu pai".

Naquele lugar me acostumei a fazer coisas que não gostava em troca de comida e um lugar para ficar. Cada vez que ficava com um homem lembrava "dele". Aquilo era o inferno e eu era uma alma que gemia e por dentro clamava por uma luz no fim do túnel. O ódio por meu pai levou-me a fazer uma promessa a mim mesma: se alguma vez o encontrasse em minha frente o mataria.

Agora estava pronta para matá-lo. Ouvi risadinhas vindas do quarto ao lado. Ainda com meu pai sob minha mira, meu coração se contraiu e percebi que isso aconteceu quando pensei em Marcelo e nas risadas que dávamos quando estávamos juntos. Ele e eu nos conhecemos há um ano atrás, numa certa noite em que alguns amigos dele lhe prepararam uma despedida de solteiro. Contrataram meus serviços para aquela noite. Ele era bonito, 36 anos, corpo franzino e apesar da idade parecia inexperiente. Fiz o que tinha que fazer e fui embora.

Uma semana depois Marcelo estava me visitando na casa da Bela. Disse-me que o noivado tinha acabado, que perdera a vontade de casar. Perguntei a mim mesma se a noiva tinha descoberto algo sobre a despedida de solteiro. Marcelo passou a ser meu cliente. Cada vez que nos encontrávamos passava a conhecê-lo mais e vice-versa. Os momentos com ele passaram a ser bons e então, estranhamente, passei a sentir sua falta quando custava a vir me ver. Havia algo diferente na forma como me tratava e eu gostava daquilo. Até que um dia Marcelo me perguntou como fui parar naquele lugar. Tive a sensação que não podia esconder nada dele e contei-lhe minha história incluindo o grande ódio por meu pai. Ele achou tudo muito triste e indagou o porquê daquele nome e apelido: Conceição, a alegre. Disse-lhe que escolhi para esconder meu passado e a tristeza que carregava em meu coração. Foi então que algo maravilhoso aconteceu: ele me abraçou tão forte que não me contive e chorei em seus braços. Ele perguntou então se eu gostaria de deixar a vida de prostituta. Com um suspiro, como que de cansaço, deixei escapar um "sim". Olhei para ele e vi em seus olhos um brilho terno carregado de decisão.

"Escute bem", disse ele se chegando para mais perto de mim. "Estou de viagem marcada para amanhã. Irei resolver alguns negócios numa fazenda que tenho e devo ficar duas semanas fora. Quando voltar, quero que você esteja em minha casa me esperando. Resolva tudo por aqui, se despeça de suas amigas e dê adeus a este lugar. Você não será mais uma mulher da vida".

Fiquei a fitá-lo por um momento, incrédula, esperando que sorrisse e dissesse: "Brincadeira!!!". Mas ele permaneceu com a mesma expressão séria a olhar-me através de muito além de meus olhos. Eu perdi a voz e ele me abraçou novamente. Por fim deu-me o endereço e a cópia da chave de sua casa. Devo estar sonhando, disse-lhe. Isso não é real. Ele sorriu e apenas repetiu: "Duas semanas. Esteja lá quando eu voltar".

"Era pra mim tá lá agora esperando ele. Mas você tinha que aparecer, não é?" Eu cuspia enquanto jogava sobre ele meu protesto e indignação. "Tirou minha inocência no passado e agora veio levar o sonho de um futuro. Quando apareceu essa chance pra mim, você tinha que vir e estragar tudo!" Ele parecia confuso a fitar-me. De fato, não sabia do que eu falava. Mas agora ele estava ali. Já que tinha aparecido cabia a mim cumprir a promessa que fizera a mim mesma: tirar-lhe a vida.

As meninas que trabalhavam na casa da Bela perguntaram se eu estava brincando, pois nunca alguém foi ali para tirar alguma garota de programa daquela vida antes. "Você é uma felizarda, garota!" gargalhou Bela. Todas ficaram, enfim, felizes por mim e me deram um abraço coletivo. No dia seguinte, quando fiz minha mala, guardando nela apenas as roupas que eu mais gostava, fui me despedir das meninas no salão. O lugar estava animado e havia muitos homens ali. Cheiro de bebida e cigarro enchia o lugar. Olhei para todos os presentes como uma última fotografia que iria ficar revelada e gravada em minha mente, mostrando-me onde o ato de meu pai tinha me levado. Sim, tudo havia começado com ele.

Subitamente minha atenção foi tomada por um homem de meia-idade que adentrou o recinto sorrindo juntamente com alguns amigos. Quase que instantaneamente meu corpo todo estremeceu e minhas pernas perderam o equilíbrio e caí desfalecendo. Acordei na minha cama com Bela me olhando com ar de preocupação. "É ele! É ele!" Eu gritei já chorando. "É o homem que me violentou. É o meu pai!" Bela pediu para eu ficasse calma e lhe contasse o que tinha acontecido. Depois e me acalmar, revelei-lhe a identidade de meu pai e pedi-lhe para falar à garota que ficasse com ele naquela noite para sondar tudo o que pudesse sobre ele. Sem muito questionar Bela fez o que pedi.

Meu pai era da área da construção civil e estava na cidade contratado por uma empreiteira que estava à frente de uma grande obra financiada pela prefeitura. Fiquei sabendo ainda que minha mãe tinha falecido de ataque cardíaco e que eu tinha dois irmãos que não eram da minha mãe, além de mais coisas. Porém não descobri isso tudo por informações da garota que ficou com ele na noite em que desmaiei. Ela descobriu apenas onde ele trabalhava e eu, meio que dando uma de investigadora, fui à obra e fiz indagações às pessoas que com ele trabalhava sem, é claro, que ele soubesse.

Até que um dia, ainda atrás de mais informações, ele mesmo me abordou e quis saber o porquê de tantas perguntas a seu respeito. Notei que não me reconheceu. Desconversei, como só uma mulher vivida sabe fazer, e disse-lhe que trabalhava na casa da Bela e que o tinha visto lá. Menti ainda dizendo que o tinha achado muito atraente e gostaria de encontrá-lo à noite. Ele ficou meio desconfiado, mas isso foi até eu lhe falar que eu lhe daria um bom desconto. Sairia quase de graça. Ele sorriu quase que imediatamente. Eu também. Era dessa forma que ele iria morrer, pensei.

À noite, um dos primeiros rostos que apareceram no salão foi o dele. Bela foi me chamar no meu quarto e me perguntou o que eu ainda estava fazendo naquele lugar ao invés de estar na casa de Marcelo à espera dele. Como tivesse recebido um choque lembrei que duas semanas já haviam se passado e ele estaria chegando a qualquer momento. "Vou fazer esse último serviço e depois eu vou." Bela deu de ombros como que dizendo: "você é quem sabe".

Trouxeram meu pai ao meu quarto. O sorriso dele me dava náuseas. Fiz ele sentar na cama e tirei-lhe a camisa em silêncio. Podia ouvir sua respiração ofegante e, vendo-o ali comigo naquele quarto, fez com que todas as lembranças dolorosas ressurgissem ainda mais nítidas, latentes, dolorosas. Afastei-me apenas o suficiente para alcançar, debaixo do travesseiro, a arma que tinha adquirido logo após nosso encontro na obra. Com um salto me pus à frente dele, de prontidão, preparada para atirar.

"O que é isso, mulher! Tá lôca?" Ele se assustou e logo pôs as mãos para cima.

"Não me reconhece… pai?" Foi como se ligassem um interruptor na mente dele. Seus olhos arregalaram e então se lembrou de mim. "Vou matar você. Não podia ter feito aquilo comigo... eu era uma criança! Nenhuma criança merece passar por aquilo... Seu monstro!"

Enfim, agora ele estava ciente que iria morrer. Eu iria matá-lo por tudo o que fizera comigo. E quem sabe não havia feito com outras crianças? Seria por isso que minha mãe teria morrido do coração? Teria ela, de fato, descoberto as coisas perniciosas que ele fazia?

"Seu desgraçado!" Gritei e firmei meus pés para atirar. Olhei bem dentro dos olhos dele. Era o fim.

Crank! Alguém chutou a porta e ela se abriu violentamente. Era Marcelo. Ele tinha chegado de viagem e não tinha me encontrado em sua casa. Certamente veio saber dos meus próprios lábios o que houve para eu mudar de idéia. Porém em seus olhos vi o espanto por me ver apontando uma arma para um estranho.

Eu esbravejei:

"Esse aí é o canalha do meu pai! Que me estuprou, ameaçou me matar, fez eu fugir de casa com medo dele, me fez passar fome, me prostituir... É tudo culpa dele! Por isso vou matar ele! Ele merece morrer!"

Várias pessoas já estavam ali na porta, nervosas, de olhos fitos em nós. Mesmo assustado, Marcelo se esforçou para falar brandamente:

"Talvez ele mereça, Conceição... mas se for por suas mãos a chance de você ser feliz vai acabar".

Eu estava trêmula e ainda com a raiva pulsando em minhas têmporas. Como Marcelo poderia ser tão bom? Refleti que aquela chance de que falava era sobre nós dois. Talvez eu tivesse que agarrá-la com unhas e dentes e nunca mais soltar.

"Não faça isso. Venha comigo". Ele sussurrou com mansidão. "Se quer matá-lo, faça isso no seu coração. Ele acabou com sua inocência; não deixe que acabe com a sua vida também".

Fitei meu pai por mais alguns segundos em então baixei o revólver. Minhas lágrimas deram lugar a soluços altos e incontrolados. Eu precisava me libertar.

Marcelo chegou bem próximo ao meu pai e falou para ele: "Suma e nunca mais volte a colocar os pés nessa cidade de novo".

Foi a última vez que vi meu pai na vida. Marcelo levou-me para sua casa e cuidou das feridas que havia em minha alma. Foi um doloroso processo, mas conseguimos superar.

Hoje constituímos família e passamos a viver para nossas duas filhas, que hoje estão com oito e seis anos. Lindas e inocentes... como um dia já fui.

Inocência. Quem dera não a perdêssemos tão cedo.


Naasom A. Sousa
Email/MSN(Messenger): letrassantas@hotmail.com
Toda Glória, honra e louvor a Jesus, o Rei dos reis!

terça-feira, 20 de julho de 2010

CONTO: O Sábio

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A cidade era minúscula, como tantas outras nos estados sulistas da América do Norte. O auto-carro que cruzava a região, a maioria das vezes nem parava. Mas nesse dia, para surpresa dos cerca de 500 habitantes locais, descera um estranho e se dirigiu à pensão da Betty Sue.

Bem, aquele era o único local na cidade onde se podia alugar um quarto, comer uma refeição e beber uma cerveja fresca. Betty Sue era o centro nervoso da cidadezinha. Todas as fofocas passavam por lá e para se estar em dia com o mexerico era obrigatório dar uma paradinha lá, pelo menos dia sim, dia não.

O cavalheiro que descera do auto-carro estava munido de uma só mala. Bastante apresentável o tipo. De terno cinzento-escuro, camisa branca, impecavelmente engomada e uma gravata com desenhos modernos, difíceis de decifrar, mas que ficava bem no conjunto. Rosto comprido e sério, a testa alta, o cabelo recuado, cortado à escovinha, os olhos grandes de um azul profundo, a boca larga, lábios estreitos e orelhas meio de abano com o nariz razoavelmente grande.

Parecia preparado para ficar uns dias, pois pagou previamente pela semana. Betty Sue, que fora quem o viu de mais perto, assegurou que era muito sério e de poucas falas. O nome não dizia nada de novo: Nick Thompson. Mas, no fim da tarde, já o estranho era o motivo principal das conversas e todos lutavam para acrescentar mais pormenores sobre o indivíduo. Havia que se apressar, pois quem mais tirasse dele mais teria proeminência na cidade nos dias subsequentes.

O dia seguinte foi de grande agitação na cidade. É claro que alguém que não conhecesse o local nem daria por isso. Só os da terra podiam ver a procura febril de novos dados sobre o Sr. Thompson.

O homem levantou-se cedo. Pediu um café puro, uma torrada e nada mais. Passou no barbeiro para fazer a barba e além da saudação e alguns monossílabos nada mais dissera. Comprou um jornal do dia anterior na banca, engraxou os sapatos com o Tony e se retirou para o quarto até o almoço. Foi aí que Betty Sue tentou sua sorte.

- O Sr. Thompson pretende se demorar por estas bandas? (perguntou com um sorriso franco do seu rosto bolachudo e sempre exageradamente maquiado).

- Talvez (fora a resposta lacónica).

- Vem de longe?

- Um pouco.

- A negócios?

- Certamente.

- Muito dinheiro envolvido?

- É possível…

E assim prosseguiu a conversa. A mulher tentando tirar e o homem sem largar nada. Ficara quase na mesma. Tudo que lhe perguntava ele concordava de um modo pouco convicto, o que a deixou um tanto contrariada e confusa. O que poderia relatar às comadres no fim do dia? Estavam mortas por saber mais do desconhecido e ele ali armado com uma couraça de indiferença perante a curiosidade quase mórbida da pequena cidade.

E não é que fora o Smith da tabacaria que conseguiu a nota mais saliente do dia? Ao vender um maço de cigarro ao Sr. Thompson lhe inquiriu sobre a visita àquela cidade. Porque ali, um local tão pequeno?

- Gosto muito de sossego (foi a resposta).

Todos gostaram daquela palavra. Era sem dúvida um atestado de bom senso e levantou a ideia de que o homem poderia querer se instalar ali mesmo. Afinal, dinheiro era o que parecia não lhe faltar. A Betty Sue lhe vira a carteira cheia, fora os cartões de crédito, e garantia a quem quisesse ouvir, e todos queriam, que o Sr. Nick devia ser um desses milionários excêntricos.

Os dias foram se passando lentamente para o povo da cidade e pouco se acrescentava sobre o mistério do visitante. Vestia sempre bem, apesar de variar muito pouco. Andava muito limpo. Fora visto colhendo plantas locais e terra. Iniciara um jardim no parapeito da janela do seu quarto e respondia com expressões guturais ou monossílabos.

No salão de barbearia se discutia sobre ele a todo o vapor:

- Deve ser podre de rico (referia Tony o engraxate). De outra forma não viria gastar dinheiro num local tão afastado e perdido no mapa.

- Escolheu muito bem, se quer saber a minha opinião (interpôs o prefeito Jackson, meio magoado com a desconsideração do Tony).

- Pode ser um fugitivo da lei (tentou o Barnaby aposentado das linhas de ferro).

- Não tem cara disso (resistiu MacSurrey o barbeiro). Ele é muito calmo para quem está fugindo e já está aqui há mais de uma semana! Um fugitivo não fica tanto tempo em lugar nenhum.

- Pois eu acho que é um escritor, um sábio de alguma espécie! (opinou Larry, um caminhoneiro meio desempregado) Deve estar fazendo pesquisa para um novo livro ou lá como o chamam.

- Bem pensado! (reagiu o prefeito) Lá cara de entendido ele tem! Olha para as coisas sempre com um ar de quem conhece bem. Ouve os assuntos com atenção e apesar de não dar opiniões vê-se perfeitamente que está por dentro de tudo. Eu não me admiraria se fosse professor universitário ou até coisa maior.

- Mas porque é que não fala? (estranhou Tony) Parece até que o gato lhe comeu a língua!

- E lá é preciso falar para se ser alguém? (retorquiu MacSurrey irritado). Lembro-me bem do que meu avô contava de um grande génio que conheceu e que quase não falava. Estava sempre tão absorto em pensamentos superiores que as conversas do dia-a-dia o distraíam e não se dava a bater papo nas esquinas. Pode ser esse o caso.

- Exactamente! (concordou Larry sacudindo com uma risada seu enorme corpo de mais de 2 metros e 130 quilos) Até tem graça, um crânio desses aqui na nossa cidade! Ainda vai tornar famosa a nossa região, descobrindo alguma coisa importante por aqui.

- Seria boa ideia (opinou Jackson com os olhos brilhando). Podia ser que implementasse o turismo. Podíamos ter um hotel ou dois, e quem sabe um drive-in, para dar mais animação à cidade.

- Sim, Porque a Betty Sue já deu o que tinha a dar (comentou o Tony rindo ao que todos gargalharam com gosto).

E de facto, no café-restaurante-pensão, outro grupo, este de mulheres, também conversava sobre o desconhecido enquanto tomavam xícaras de chá e biscoitos de chocolate.

- Tem um ar tão distinto (dizia a Mary Lou). Acho que é mesmo um dos homens mais charmosos que já conheci! Me lembra artista de cinema...

- Poderia ser (riu de excitação a Conchita que estava ali desde que viera do México). Pode bem-estar descansando da cidade grande e se escondendo da fama e dos jornalistas. Li numa revista que há muitos atores que fazem isso.

- Já pensou que emocionante? (sorriu a Sra. Jackson) Isso pode trazer fama à nossa terra, turistas, quem sabe?

- Não parece ator (comentou a Betty Sue, que para todos os efeitos era a maior entendida na matéria, pois hospedava o homem). Parece mais um estudioso ou professor de alguma coisa.

- Sim (retrucou Samantha) tem mesmo cara de doutor! Aquela testa não engana ninguém!

- Olha que se calhar não era mal partido hein? (tentou a Sra. Jackson rindo para Samantha, que era a solteira mais cobiçada da cidade).

- Lá dinheiro tem de sobra! (disse Betty Sue) Isso eu posso garantir!

- E é bem mais bonito que o Perkins (riu Mary Lou lembrando um pretendente de Samantha).

- Mas, falando sério (procurava acalmar os ânimos a visada nas brincadeiras) que o homem tem cara de sábio lá isso tem e ninguém pode negar.

A partir desse dia então, Nick Thompson, passou a ter a fama, merecida ou não, de sábio de grande valor. E tudo que fizesse ou dissesse era interpretado à luz dessa opinião. Se ele pegava uma pena de pássaro que caíra estava estudando aerodinâmica. Se demorava-se a ver o por do sol, estaria compondo poesias imortais. Se respondia por monossílabas era para não gastar seus preciosos neurónios com conversas tolas e se vestia sempre a mesma cor de roupa era porque isso certamente teria um efeito positivo na saúde e bem-estar das pessoas. Até houve quem notasse que o prefeito estava repetindo mais vezes o seu terno azul-marinho...

Certa ocasião enquanto os homens estavam reunidos a tomar cerveja o Sr. Nick entrou e saudou a todos cordialmente. Ofereceram-lhe cerveja e o homem aceitou de bom grado, pois estava quente e uma geladinha ia bem. Discutia-se a supremacia do transporte aéreo sobre o marítimo. Havia, como sempre, dois partidos. Uns defendiam os aviões, outros os navios. A conversa estava acalorada. Havia que aproveitar o fim da tarde em discussão, já que mais nada havia a fazer na cidade, senão esperar pelo jornal da noite na televisão e isso ainda ia demorar ainda um bom tempo.

Depois de muitos argumentos pró aéreos e pró marítimos houve um que teve a ideia de questionar o ilustre visitante, que segundo o conceito geral era um sábio. O arguido olhou para os presentes com ar distraído, levantou as sobrancelhas por alguns segundos e baixando-as de seguida abriu um sorriso suave e encantador e com um leve dar de ombros abanou a cabeça como que reiterando o óbvio.

Aquele gesto foi seguido de perto por todos e por incrível que pareça terminou a discussão. A todos parecera que o génio visitante rematara a polémica como ninguém e o gesto foi descrito exaustivamente sobre as mesas de jantar das várias casas locais. É claro que cada lado da disputa reclamava o referido gesto como sendo a afirmação cabal de sua vitória no conceito do sábio. Mas a verdade é que todos concordavam com a profunda astúcia e tremenda sabedoria do indivíduo.

Ainda não completara um mês que o Sr. Nick estava na cidade e o prefeito já o convidara a ser sócio de um negócio importante, o xerife lhe encomendara dois discursos sobre segurança pública no centro cívico e a senhorita Samantha Brown se preparava para acabar com seus dias de solteira, no que seria o grande casamento da década.

Porém, misteriosa e quase furtivamente como chegara, o estranho se foi. Não chegou a se despedir de ninguém. Não terminou de usar os dias pelos quais pagara a pensão da Betty Sue. Simplesmente saiu de mala na mão e fora dos limites da cidade pegou carona, desaparecendo das vidas de todos sem deixar rastro.

Iniciava-se a lenda, o mito. Tinham sido visitados por um génio por algum tempo e alguns mais espiritualistas até falavam de anjo ou outro ser se uma realidade desconhecida. Houve inclusive quem sugerisse trazer a televisão para fazer uma reportagem, pois jurava que o tal Nick era, na verdade, um extraterrestre que viera investigá-los. Fosse como fosse, tinham sido dias de excitação na cidadezinha.

Passaram-se algumas semanas e um carro com chapa de outro estado e símbolo oficial parou à frente da pensão de Betty Sue. Era um sábado de manhã, perto da hora do almoço e o local estava abarrotado, como de costume. Os dois homens que desceram pareciam de alguma instituição estatal e o carro trazia um emblema na porta. Alguma coisa sobre Saúde Pública. Entraram, pediram café e sanduíches e ficaram conversando um pouco.

Quando a dona da pensão trouxe os pedidos lhe mostraram uma fotografia. Era do Nick! Betty Sue gelou! Conhecia ela o homem? Ela fez sinal que não. Todos os presentes estavam em suspense, acompanhando a situação.

- É algum criminoso? (perguntou ela temerosa)

- Não! (afirmou o homem rindo) Nick não faria mal a uma borboleta! É apenas maluco! Completamente louco! Fugiu do Sanatório de Memphis há dois meses e tivemos uma denúncia que teria vindo para estes lados. É que levou todo o dinheiro da recepção... Ainda era uma boa quantia!

Betty Sue deu um sorriso amarelo e voltou-se. Todos os cidadãos presentes a olhavam. Podia-se ver em seus olhos o espanto e a quase incredulidade.

A verdade é que nunca mais ninguém falou de Nick Thompson naquelas paragens.


Baseado em Provérbios 17:28
" Até o tolo quando se cala será reputado por sábio; e o que cerrar os seus lábios por entendido."



PR. JOED VENTURINI
http://joedblogosfera.blogspot.com/2010/04/conto-o-sabio.html

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

CONTO: Deus.

"Um dia, há muitos anos atrás, eu estava de pé na porta da sala, esperando meus alunos entrarem para nosso 1º dia de aula do semestre.
Foi aí que vi Tom, pela primeira vez. Não consegui evitar que meus olhos piscassem de espanto. Ele estava penteando seus cabelos longos e muito louros que batiam uns vinte cm abaixo dos ombros. Eu nunca vira um rapaz com cabelos tão longos. Acho que a moda estava apenas começando nessa época.
Mesmo sabendo que o que importa não é o que está fora, mas o que vai dentro da cabeça, naquele dia eu fiquei um pouco chocado. Imediatamente classifiquei Tom com um "E" de estranho... muito estranho! Tommy acabou se revelando o "ateísta de plantão" do meu curso de Teologia da Fé. Constantemente, fazia objeções ou questionava sobre a possibilidade de existir um Deus-Pai que nos amasse incondicionalmente. Convivemos em relativa paz durante o semestre, embora eu tenha que admitir que às vezes ele era bastante incômodo. No fim do curso, ele se aproximou e me perguntou, num tom ligeiramente irônico:
- O senhor acredita mesmo que eu possa encontrar Deus algum dia?
Resolvi usar uma terapia de choque: - Não, eu não acredito! - respondi.
- Ah! - ele respondeu - Pensei que era este o produto que o senhor esteve tentando nos vender nos últimos meses.
Eu deixei que ele se afastasse um pouco e falei, bem alto:
- Eu não acredito que você consiga encontrar Deus, mas tenho absoluta certeza de que Ele o encontrará um dia.
Ele deu de ombros e foi embora da minha sala e da minha vida.
Algum tempo depois soube que Tommy tinha se formado e, em seguida, recebi uma notícia triste: ele estava com um câncer terminal. E antes que eu resolvesse se ia à sua procura, ele veio me ver. Quando entrou na minha sala, percebi que seu físico tinha sido devastado pela doença e que os cabelos longos não existiam mais, devido à quimioterapia. Entretanto, seus olhos estavam brilhantes e sua voz era firme, bem diferente daquele garoto que conheci.
- Tommy, tenho pensado em você. Ouvi dizer que está doente! - falei.
- Ah, é verdade, estou seriamente doente. Tenho câncer nos dois pulmões. É uma questão de semanas, agora.
- Você consegue conversar bem a esse respeito?
- Claro, o que o senhor gostaria de saber?
- Como é ter apenas vinte e quatro anos e saber que está morrendo?
- Acho que poderia ser pior.
- Como assim?
- Bem, eu poderia ter cinqüenta anos e não ter noção de valores ou ideais, ou ter sessenta anos e pensar que bebida, mulheres e dinheiro são as coisas mais "importantes" da vida.
Lembrei-me da classificação que atribuí ! a ele: "E" de "estranho".(Parece que as pessoas que recebem classificações desse tipo, são enviadas de volta por Deus para que eu possa repensar o assunto).
- Mas a razão pela qual eu realmente vim vê-lo - disse Tom - foi a frase que o senhor me disse no último dia de aula. (Ele se lembrava!...) Tom continuou: - Eu lhe perguntei se o senhor acreditava que eu encontraria Deus algum dia e o senhor respondeu 'Não', o que me surpreendeu. Em seguida, o senhor disse, "mas Ele o encontrará". Eu pensei um bocado a respeito daquela frase, embora na época não estivesse muito interessado no assunto. Mas quando os médicos removeram um nódulo da minha virilha e me disseram que se tratava de um tumor maligno, comecei a pensar com mais seriedade sobre a idéia de procurar Deus. E quando a doença se espalhou por outros órgãos, eu comecei realmente a dar murros desesperados nas portas de bronze do paraíso. Mas Deus não apareceu. De fato, nada aconteceu. O senhor já tentou fazer alguma coisa por um longo período, sem sucesso? A gente fica cansado, desanimado. Um dia, ao invés de continuar atirando apelos por cima do muro alto atrás de onde Deus poderia estar... ou não... eu desisti, simplesmente. Decidi que de fato não estava me importando... com Deus, com uma possível vida eterna ou qualquer coisa parecida. E decidi utilizar o tempo que me restava fazendo alguma coisa mais proveitosa. Pensei no senhor e nas suas aulas e me lembrei de uma coisa que o senhor havia dito noutra ocasião: "A tristeza mais profunda, sem remédio, é passar pela vida sem amar. Mas é quase tão triste passar pela vida e deixar este mundo sem jamais ter dito às pessoas queridas o quanto você as amou." Então resolvi começar pela pessoa mais difícil: meu pai. Ele estava lendo o jornal quando me aproximei dele:
- Papai...eu disse.
- Sim, o que é? - ele perguntou, sem baixar o jornal.
- Papai, eu gostaria de conversar com você.
- Então fale.
- É um assunto muito importante!
O jornal desceu alguns centímetros, vagarosamente.
- O que é?
- Papai, eu o amo muito. Só queria que você soubesse disso.
O jornal escorregou para o chão e meu pai fez duas coisas que eu jamais havia visto: ele chorou e me abraçou com força. E conversamos durante toda à noite, embora ele tivesse que ir trabalhar na manhã seguinte.
- Foi tão bom poder me sentar junto do meu pai, conversar, ver suas lágrimas, sentir seu abraço, ouvi-lo dizer que também me amava!... Foi uma emoção indescritível!
Foi mais fácil com minha mãe e com meu irmão mais novo. Eles choraram também e nós nos abraçamos e falamos coisas realmente boas uns para os outros.
Falamos sobre as coisas que tínhamos mantido em segredo por tantos anos, e que era tão bom partilhar.
Só lamentei uma coisa: que eu tivesse desperdiçado tanto tempo, me privando de momentos tão especiais.
Naquela hora eu estava apenas começando a me abrir com as pessoas que amava.
Então, um dia, eu olhei, e lá estava ELE. Ele não veio ao meu encontro quando Lhe implorei. Acredito que estava agindo como um domador de animais que, segurando um chicote, diz:
- Vamos, pule! Eu lhe dou três dias... três semanas...
Parece que Deus não se deixa impressionar. Ele age a Seu modo e a Seu tempo. Mas o que importa é que Ele estava lá. Ele me encontrou. O senhor estava certo. Ele me encontrou mesmo depois de eu ter desistido de procurar por Ele.
- Tommy - eu disse, bastante comovido - o que você está dizendo é muito mais importante e muito mais universal do que você pode imaginar. Para mim, pelo menos, você está dizendo que a maneira certa de encontrar Deus, não é fazendo Dele um bem pessoal, uma solução para os nossos problemas ou um consolo em tempos difíceis, mas sim tornando-se disponível para o verdadeiro Amor. O apóstolo disse isto: "Deus é Amor e aquele que vive no Amor, vive com Deus e Deus vive com ele".
- Tom, posso lhe pedir um favor? Você sabe que me deu bastante trabalho quando foi meu aluno. Mas (aos risos) agora você pode me compensar por aquilo. Você viria à minha aula de Teologia da Fé e contaria aos meus alunos o que você acabou de me contar? Se eu lhes contasse não seria a mesma coisa, não tocaria tão fundo neles!
- Oooh!... eu me preparei para vir vê-lo, mas não sei se estou preparado para enfrentar seus alunos.
- Então, pense nisto. Se você se sentir preparado, telefone para mim.
Alguns dias mais tarde, Tom telefonou e disse que falaria com a minha turma. Ele queria fazer aquilo por Deus e por mim. Então marcamos uma data. Mas, o dia chegou... e ele não pode ir. Ele tinha outro encontro, muito mais importante do que aquele. Ele se foi... Tom havia dado o grande passo para a verdadeira realidade.
Ele foi ao encontro de uma nova vida e de novos desafios. Antes dele morrer, ainda conversamos uma vez.
- Não vou ter condições de falar com sua turma. - ele disse.
- Eu sei, Tom.
- O senhor falaria com eles por mim? O senhor falaria... com todo mundo por mim?
- Vou falar, Tom. Vou falar com todo mundo. Vou fazer o melhor que puder.
Portanto, a todos vocês que foram pacientes, lendo esta declaração de amor tão sincera, obrigado por fazê-lo.
E a você Tommy, onde quer que esteja, aí está: eu falei com todo mundo... do melhor modo que consegui. E espero que as pessoas que tiveram conhecimento desta história, possam contá-la aos seus amigos, para que mais gente possa conhecê-la..."
"OS AMIGOS SÃO O MEIO PELO QUAL DEUS GOSTA DE CUIDAR DE NÓS!..."
Autor: Desconhecido

CONTO: Somos Meninos sem Rostos.

Naquela manhã, ele acordou um pouco mais tarde do que costumava levantar. Havia uma dorzinha de cabeça típica de quem dormiu demais e um cansaço físico de quem havia dançado a noite toda. Veio à boca o gosto amargo da bebida e isso lhe repugnou o estômago. Olhou pro relógio, já eram 14:00h. Lentamente foi até o banheiro, olhou para a pia, apoiou-se nela e olhou para o espelho... Talvez tenha tomado o maior susto da sua vida! Sua imagem não estava lá, olhou para seu corpo, confirmando se ainda estava ali e tornou a olhar para o espelho, onde viu um menino sem o rosto, todo sujo, vestido com roupas velhas e rasgadas. Pensou: "Meu Deus! O que é isso?"
Imediatamente ouviu uma voz, que dizia:

"Este é você, pois dizes ‘estou rico e abastado’ mas não sabes que és um menino, pobre, cego e nu".

Seu corpo tremeu, sua alma se agitou e começou a chorar, mas não sentia suas lágrimas caírem, então colocou as mãos em seu rosto e percebeu que já não tinha mais os olhos. Estava se transformando em um menino sem rosto. Saiu desesperado pela casa, tateando as paredes, em busca de auxílio. Pegou o telefone e discou o número da namorada. "Ela pode me ajudar", pensou.

Ouviu sua doce voz, quando atendeu ao telefone, mas não conseguiu dizer nada. Passou a mão em seu rosto novamente e não sentiu seus lábios, pois já não existiam. Deu um grito de pavor que não pode ser ouvido do outro lado da linha. Chorou amargamente, mas as lágrimas não chegaram ao chão. De repente lhe começou a faltar o ar, pois também já não tinha o nariz e começou a sufocar. Agarrou-se a todo o que podia alcançar com suas pequenas mãos de menino. Foi caindo ao chão, lentamente sufocando.

Lembrou-se de cada segundo da sua vida, de cada sorriso que agora não podia mais dar, de cada lágrima que havia secado. Os sons ao seu redor começaram a ficar desconexos, distantes e confusos. Então sobreveio-lhe um frio cortante, seus músculos contraíam, sua pele tremia. Algo estranho começou a acontecer. Ouviu a mesma voz dizendo: "abram-lhe os olhos" e seus olhos se abriram. Viu uma imensa fila de meninos iguais aquele que havia se tornado, todos sujos, maltrapilhos e sem rostos, caminhando lentamente em direção de uma fornalha. O frio intenso e a total escuridão faziam com que buscassem aquela luz e o conforto daquele calor, porém quando chegavam perto, eram empurrados para dentro dela e lá eram consumidos pelo fogo eterno.

Horrorizado com o que via, perguntou àquela voz, o que era aquilo.

"O devorador de almas. Transforma vidas cheias de mim em meninos sem rostos, que não podem me ver, me ouvir, nem sentir meu perfume ou, se quer, clamar pelo meu nome".

"E eu? Vou para lá também?", perguntou ele.

"Sim" foi a resposta.

Então ele caiu de joelhos no chão e começou a clamar, enquanto podia, dizendo:

"Dê-me mais uma chance, só mais uma chance!"

Não parava de chorar e gritar, clamando pela misericórdia de Deus, então começou a sentir um forte calor em seu corpo e alguém segurou em seus braços. Então gritou:

"Não, não me atirem na fornalha! Não quero ir. Deus! Me ajude, o devorador de almas me pegou!"
Aquele calor sumiu...

Quando abriu os olhos, viu seus pais assustados, sua irmã rindo, a empregada perguntando o que houve. Seu pai largou seus braços e disse:

"Calma, você teve um pesadelo".

Ele levantou correndo, assustado, entrou no banheiro e segurou firme na pia, tomou coragem do fundo da sua alma e olhou para o espelho. O que viu foi um jovem de 17 anos, cabelos despenteados, algumas espinhas no rosto, aparelho nos dentes...

"Ufa! Tudo voltou ao normal".

-----------------------

>>> A experiência deste jovem foi marcante em sua vida. Deus realmente lhe mostrou o que estava acontecendo e lhe deu uma segunda chance. Se você se sente assim, um menino sem rosto, clame o auxílio de Deus, ainda há tempo para Ele te ouvir. Feche a porta do seu quarto, se ajoelhe e diga: "Deus, eu preciso de você para viver. Reconheço que sou pecador e preciso da Sua misericórdia em minha vida. Espírito Santo de! Deus venha habitar em meu coração, para todo o sempre, no Nome de Jesus. Amém". Deus escreverá o seu nome no livro da vida e um dia, nos abraçaremos lá no céu. Que Deus possa te abençoar.
Autor: Mission. Carlo Ozório Ribas - Presidente do Ministério Internacional de Libertação (www.mil.cjb.net)
Igreja - Batista Filadélfia - Dionísio Cerqueira - SC

quinta-feira, 29 de maio de 2008

E-BOOK: Fred e Edmundo - um conto gospel.

Esse e-book conta de forma crítica e humorada a visão de dois jovens do que é a igreja, levando os leitores à reflexão do seu papel no corpo de Cristo.
Uma leitura rápida e agradável.

Para baixar o e-book no 4SHARED -
[clique aqui].

quarta-feira, 14 de maio de 2008

CONTO: O Corpo

Quando desceram o seu corpo da cruz, duas culturas continuaram de costas viradas uma para a outra. Fui para casa e não pude parar de pensar nisto.

As sombras eram já o limiar do shabat e o hálito dos cordeiros saia pelas janelas.

As mãos de Herodes e de Pilatos, que se haviam estreitado no dia anterior, significaram pouco. Dois sistemas de poderes nenhum dos quais tolerava o outro, já Tucídides, o grego, havia dito uma coisa parecida.

Romanos e judeus, que resistiram até à última hora aos incómodos daquela sexta-feira, não tiveram nenhum entendimento especial sobre o corpo dele.

Houve uma altura em que estiveram em silêncio com receio de o despertar. Aqueles minutos que se seguiram ao brado que o crucificado pronunciara na cruz, a natureza a desmoronar-se, o dia a desconstruir-se, o sol fazendo da terra um buraco negro, modificaram algumas insensibilidades e trouxeram também algum medo, cavado nos rostos. Mãos tiraram um som ôco dos peitos como lamentação seca, mas a emoção flutua como as nuvens e uma forma agora logo já não é.

Por isso, no dia seguinte, ninguém iria acordar sobressaltado, por causa do corpo que estava a ser descravado da cruz.

-Apresentava todos os sintomas-. Disse um romano, enquanto a mão esquerda afrouxava a pressão no punho da espada.

-O corpo dele estava sombrio, como a tarde que caía.

Esta apreciação veio de alguém que estivera no grupo daqueles que esperavam uma aparição de Elias. Queria significar com o «sombrio», com certeza, o facto da hora tardia em que o sol já estava para lá do mar.

-Se uma das razões pelas quais foi crucificado, foi por ser considerado sedicioso…- dialogava um velho rabino nas imediações do monte Caveira.

- Foi por ser um malfeitor!- interrompeu-o, bruscamente, um terceiro-, Que Caifás mandou prender Jesus, porque tinha a responsabilidade de reprimir aqueles que causavam problemas- concluiu.

-Se uma das razões foi essa, e por isso levaram seu corpo ao madeiro- retomou o velho a sua suposição-, vimo-lo ser descido da cruz não como um malfeitor, mas tratado com o cuidado com que se trata um justo.

- Desceram-no da cruz com o mesmo cuidado com que tratamos o nome de Deus.- foi o ponto de vista de alguém do mesmo grupo.

-Com certeza não podiam quebrar nenhum osso-.Supôs outro.

Estas palavras deslocavam-se das bocas directamente para o meu coração. Uma imensa curiosidade pedia respostas.

Confesso que não a acompanhei (não por uma atitude de desonra ou desrespeito pelos meus progenitores), apenas por eu ter vinte anos e minha mãe já passar dos setenta. Queria chegar rapidamente a casa para consultar o rolo do Saltério, corri para um salmo davídico que falava em que osso algum daquele corpo seria quebrado, outro profeta dizia, não me lembro onde, que o seu corpo seria sepultado por um rico.

No átrio da minha casa, depois de ter passado pelas conversas na rua, meus tios também conversavam a meio tom e a conversação não transbordava de assuntos, era o mesmo de ontem e de hoje, os acontecimentos daquela Festa, que agora se iniciara, marcaram com alguma agonia as vozes.

-«Poderia não ser um Deus- pensei comigo, enquanto consultava o Psaltério-, mas o carinho, o respeito, com que aquelas mãos estavam a tirar o seu corpo da cruz, como se aquele sangue queimasse, revelavam que não se tratava de um qualquer.»

-Apresentava de facto todos os sintomas da morte?- perguntou a minha mãe, como se tivesse adivinhado os meus pensamentos, por uma qualquer ligação umbilical.

- Era o que corria na cidade- apressei-me a responder. A confirmação post mortem fora rigorosa, selvática ao ponto de uma lança perfurar o peito, mas legalmente rigorosa.

Com certeza que o tempo da Festa iria demorar mais a passar, tinha trazido eventos novos. Havia na atmosfera da cidade o sentimento de que não seria uma Pessakh igual às anteriores. Mil e tantos anos que se passaram, desde a festa do exôdo, iniciada no Egipto, e a de ano nenhum poderia ser considerada igual a esta.

Aquele corpo reunira todas as conversas. Os sintomas da morte eram evidentes, tanto assim foi que eu fiquei admirado, como outros ficaram, por lhe não terem quebrado as pernas, os soldados romanos tinham especial gôzo em fazer isso.

-Era como se quebrassem a verticalidade dos judeus- Lembrei-me que era costume ouvir esta frase de meu pai, em cada execução na qual quebravam as pernas dos condenados para chegar o colapso da morte, fulminante.

Não obstante a excepção feita àquele corpo, as duas culturas iriam continuar de costas voltadas, os romanos cintilariam com o brilho das suas armaduras, como um fogo, sobre os judeus empobrecidos, mas eu sentia que aquele corpo iria ficar para sempre entre essas duas culturas, entre os nossos povos.

No início da manhã de mais um sábado, não muito longe dali, ouvi os galos que já deviam estar empoleirados, adivinhei-lhes um ar responsável. As sombras começavam a ficar iluminadas. Eram como um simples resumo da noite.

O sábado pararia todas as coisas, viagens, gestos, o amor. Mas na guarnição romana, na Torre Antónia, caindo sobre os mosaicos da gábata, os passos dos legionários estavam longe do sábado. Nada fazia depôr as armas e a redobrada atenção para evitar os tumultos eventuais da Festa. Milhares de judeus, prosélitos, gregos, homens e mulheres, refaziam a liturgia da saída memorial do Egipto.

Um cordeiro obrigatório seria transaccionado, os pães asmos amargariam na boca e, por causa do que tinha acontecido àquele Jesus, a consciência amargaria também. Aqueles que tinham contactado com o corpo em vida, com a sua vitalidade, sentiam que tinham uma parcela de responsabilidade naquela morte. Por muito que quisessem ignorar, o seu coração carrregava agora uma cultura sacrificial da morte. E o desaparecimento do corpo, embora muitos soubessem o local onde estava sepultado, fazia-os tactear.

-Jovem Samuel- ouvi que me chamavam, quando sai de casa para dar os passos que a Lei mosaica me permitia dar num sábado. Temeroso por estar a penetrar no reduto do inimigo, não obstante contar ali com um amigo, não podia no entanto deixar de arrancar do meu aramaico para o latim, as respostas que me pediam os soldados.

-Que milagre se terá passado para esse Jesus ter morrido tão depressa?- Perguntou-me um deles.

-Uma morte por este processo pode demorar dias- parecia exagerar outro.

-Quem quer que tenha agido, qualquer ignoto demiurgo, poupou-nos a rudeza da tarefa – considerou um terceiro.

-De lhe quebrarem as pernas?- Perguntei.

O centurião, meu amigo, confirmou. Notei que a sua voz estava embargada, ao dizer uma frase tão pequena. Um «sim, não quebramos» levou tempo demasiado. A sua emoção era visível. Fora ele, soube-o depois, que afirmara perante o colapso da voz do crucificado, do seu corpo enfim livre do sofrimento, e da própria natureza, que «verdadeiramente este era Filho de Deus».

O seu corpo morto envolto num lençol de linho, como ontem o vimos, empolgou-nos a todos. Só em alguns a imagem recordada desse corpo ficaria entre lágrimas, nos olhos que exprimiam silêncios interiores como duas luzes molhadas.


Por: João Tomaz Parreira
(Publicado em 24 de Novembro/2006 no Portal Evangélico de Portugal)

terça-feira, 13 de maio de 2008

CONTO: Natasha e Luciano - PARTE 1

O TELEFONE TOCOU ...

- Alô?

- Alô. Luciano?

- Sim. Quem é?>

- Não conhece mais a minha voz?

- Não estou conseguindo identificar. Quem está falando?

- Nossa, como foi fácil pra você me esquecer... Acho que não tivemos muito significado...

-Natasha?!

- Oi...

- Que surpresa você me ligar! Pra quem disse que queria me esquecer para sempre ...

- Vai ofender? Eu desligo!

- Fique à vontade, querida. Quem ligou foi você mesmo...

- Não, espere, não vou desligar. Desculpe. É que estou aborrecida, só isso.

- Tá. E o que você quer?

- Nada. Eu só queria ouvir sua voz.

- Só? Então já ouviu. Mais alguma coisa?

- Espere, pare de ser grosso. Não, desculpe, não desligue. É que eu estou me sentindo muito sozinha.

- Foi você quem quis assim, querida. Sorva do seu próprio veneno.

- Realmente você não muda. Só sabe acusar...

- Bom, vou desligar. Tchau...

- NÃO, PELO AMOR DE DEUS, não desligue, espere, preciso te dizer algo...

- Fala logo, Natasha, tenho que trabalhar.

- Eu estava errada. Me perdoe.

- ERRADA? Você estava errada? Tem certeza disso? Será que não é um pouco tarde pra dizer isso?

- Mas agora eu reconheço...Por favor, amor, me perdoe!

- Agora? Depois que você acabou comigo, querida? Até hoje eu pago o mico do papelão que você me fez passar... Convites distribuídos, acampamento alugado, comida encomendada, viagem paga, meu casamento com você, tudo perdido... (Luciano suspira). Sofri, sofri mesmo. Queria matar você! Droga, por que eu tive que amar você? Mas tudo bem. Já faz dois anos... Ah, meu Deus, dois anos...

- Luciano, pelo amor de Deus, me perdoe!

- Pra que você quer o meu perdão? Você nem ligou pra dizer que já estava com outro cara. Pra que perdão? Vai viajar com ele, vai viver com ele, meu bem... Só me deixe em paz, por favor (Luciano chora baixinho).

Sem se dar conta, Luciano percebe uma pessoa na porta do escritório. Era ela. Natasha estava olhando pra ele. Ela falava do celular. Luciano fica
perplexo, alegre e triste - ela está linda, belíssima, muito elegante. Mas seu rosto está abatido, cansado, doente. Na mão tinha uma sacola.
Aproximou-se da mesa de Luciano, e, com olhos lacrimejantes, desligou o
celular, olhou para ele e disse:

- Oi, amor.

- Oi, Natasha. Pare de me chamar de amor. Você tá um caco, filha!

Olhos baixos, Natasha começa a tirar da sacola algumas coisas: uma caixa do correio com um CD do Demmis Roussos, que Luciano havia enviado de presente
no aniversário, uma boneca de porcelana numa casinha de papel, um celular pré-pago, alguns livros devocionais, uma bíblia de Genebra e um pacote de fotografias. Luciano a observava, perplexo, triste, e via as lágrimas de Natasha molharem a fórmica da sua escrivaninha.
Cada objeto tirado era uma facada no coração sofrido de Luciano. Algumas coisas lhe custaram caro, ele fizera grande esforço para pagá-las. Mas, pensava ele, se era pra ela, valeria à pena o esforço. Quando tudo terminara, ele se arrependera de tanto gasto desperdiçado...

- Pensei que você havia jogado as coisas que lhe dei, Natasha...

- Eu nunca me esqueci de você, Luciano. Eu errei. Errei muito, me perdoe...

Luciano, jovem advogado, lutador com as interpéries da vida, sabia que Natasha poderia estar mentindo, como tantas outras vezes, quando namoravam e
mesmo quando eram noivos. Mas havia um quê de diferente no olhar vermelho de Natasha.

- Por que você veio hoje aqui, Natasha? Deu a louca? O que te traz aqui?

Natasha suspirou, chorou, recompôs-se e disse:

- Estou com câncer, Luciano...

- CÂNCER? - Luciano petrificou-se.

- Sim, amor, eu vim me despedir. Saí do hospital à força, pra falar com você e pra morrer em casa...

Luciano não esperava por essa. Veio-lhe à memória uma de suas discussões, onde Natasha, na hora do nervoso, dissera: "E daí, Luciano? Que se dane a igreja, que se dane o pastor, que se dane você, e se Deus achar que estou errada, que me castigue..." Nossa, era como se a cena passasse de novo na
mente de Luciano.

- Como foi, Natasha?

- Depois que eu deixei você, amor, fui caindo no abismo, afastei-me do Senhor, fui morar com o André, abandonei a Cristo. Eu estava cega. Mas Deus me amava, Luciano. Se eu não fosse dEle, estaria numa boa agora, bem com o André, bem comigo e pronta pra ir pro Inferno. Mas, por amor, Deus veio corrigir-me. Ele repreende e castiga a quem ama. Ele me ama, Luciano! Estou
doente. Mas estou bem, porque estou podendo vir até você pra pedir perdão!
Nunca fui feliz, nunca tive paz, saí de casa com 3 meses de vida a dois. O André me batia, me traía, eu fugi.

- E ele não foi buscar você de volta?!

- O André foi assassinado, Luciano. Tráfico de drogas.

Luciano estava perplexo.

- Luciano, estou voltando pro Senhor, estou me preparando pra partir. Mas tenho que receber o seu perdão, amor! Sei que nunca irei compensar o que lhe fiz, mas... por favor... ME PERDOA, AMOR!

Luciano olhou para aquele resto de mulher - outrora tão orgulhosa, ostentando tanta beleza e auto-suficiência, confiando tanto em seu corpo e em sua fulgurante beleza, e agora, bonita ainda, mas notadamente pálida, enferma, cheia de hematomas nos braços, pescoço e pernas, e triste, profundamente triste, a implorar-lhe perdão para morrer em paz!

Cena patética! Ali estava quem Luciano mais amara na vida, quem mais o fizera sofrer, a depender de uma palavra apenas, para morrer em paz!

"Hora da vingança", veio-lhe à mente. Claro, agora seria a hora da revanche! Mas Luciano era um moço crente, de bom coração, e seria incapaz de reter a bênção para aquela a quem tanto amara e que, infelizmente, ainda tanto amava e tanto o fazia sofrer...

- Quer que eu perdoe você, Natasha?

- SIM, PELO AMOR DE DEUS, Luciano! Nunca mais tomei a Ceia do Senhor, nunca mais louvei ao Senhor com alegria, nunca mais fui membro de igreja, não agüento mais! Aceito as conseqüências, mas, por favor, diga que me perdoa!

Enxugando as lágrimas, refazendo-se, Luciano olhou-a no fundo dos olhos, tomou as suas duas mãos, que estavam frias como as de um defunto, e lhe disse, num terno sorriso misericordioso:

- Querida, desde que você foi embora eu já havia lhe perdoado. Mas, se você quer escutar e sentir paz, ouça-me: EU PERDÔO VOCÊ POR TUDO QUE ME FEZ. VOCÊ ESTÁ LIVRE EM NOME DE JESUS!

Natasha tremeu. Gritou "aleluia", sorriu, chorou, e caiu desmaiada.

Logo o assistente de Luciano veio ajudá-lo, e, colocando-a no carro, levaram-na para o hospital. Luciano tinha o telefone de toda a família ainda, ligou e avisou. Em uma hora todos estavam ali na recepção, tristes, aflitos, alguns desesperados. Chegou o pastor. A família implorou-lhe que fosse até a UTI orar com ela. O pastor, que conhecia o Luciano, olhou bem pra ele, pensou, fechou os olhos em oração, e, a seguir, falou:

- Quem tem que entrar é o Luciano. Vá lá, Luciano. Eu conheço o diretor da UTI, pedirei autorização.

- EU, PASTOR?

- Sim, filho. Ela é o seu amor.

- FOI, PASTOR..

- Não, filho. Deus o uniu a ela novamente, ainda que seja na despedida.

Luciano não sabia o que fazer. A família, desconsolada, chorava, mas a mãe, certa do que tinha que ser feito, empurrou o Luciano até a porta, dizendo:
"Vai, filho, corre, antes que seja tarde!"

Ah, aquele corredor que dava para a UTI parecia não ter fim! Cada passo dado era uma lembrança: o primeiro beijo, a primeira maçã-do-amor, o primeiro jantar, o primeiro por-do-sol juntos; o dia em que viajaram num encontro
missionário, o dia em que foram juntos à praia e que ele deu de presente a primeira rosa! O jantar de noivado, os telefonemas, tudo. Não sobraram recordações da tragédia, da traição, do desprezo. Na verdade quem ama guarda as más experiências numa sacola furada. E Luciano fez assim.

Vestido com o jaleco, a máscara e o sapato de pano, Luciano entrou. Vários boxes onde pessoas definhavam. Lá estava Natasha, no número 6. Estava no respirador artificial, cuja sanfona funciona como um pulmão e faz um barulho horripilante. Estava linda, mas totalmente ligada a aparelhos, notadamente

cansada, em coma, morrendo. Luciano sentiu sua dor. Chorou. Tremeu. Segurou
forte a mão de sua amada. Pensou em Cristo, que dera a vida pela noiva, pensou em Oséias, que aceitou a esposa adúltera novamente, pensou em Deus, que tantas e tantas vezes tratou a Jerusalém com compaixão. Quem era ele para não perdoar? Quem era ele para não acolher?

Então orou.

"Senhor, o que posso dizer? Minha garota está morrendo! Ex-garota, claro. Mas mesmo assim está doendo, Pai! E eu sou impotente diante de tudo isso!
Essas máquinas, esse cheiro de éter e de carnes inflamadas, esse barulho infernal, meu Pai, o que posso dizer? Que deixe a minha garota morrer em
paz? Sim, Senhor, leve-a para a tua glória! Eu a amo! Mas sei que tu a amas mais do que eu! Abençoa a Natasha. Em nome de Jes...>

Subitamente Luciano pensou em completar a oração com o seguinte pedido:

"Mas, Senhor, se ainda houver um espaço para ela viver para ti, recuperar parte do tempo perdido, se na tua infinita misericórdia não for demais, por favor, Senhor, cura a tua serva. Ela já sofreu bastante, ela aprendeu, Senhor. Até eu, que fui o mais ofendido, já a perdoei! Por favor, Senhor, se der, devolve-lhe a vida! Mesmo que não seja pra viver comigo. E agora sim, em nome de Jesus. Amém".

- Por favor, me avisem - disse Luciano aos familiares - , me avisem quando
tudo terminar. Quero estar presente.

E foi embora. Tirou a tarde para viajar, seu hobby preferido: foi pra uma
cidadezinha próxima, ver o por-do-sol...

[ CONTINUA... ]

CONTO: Natasha e Luciano - PARTE 2

No caminho, ao longo da rodovia, seus pensamentos corriam mais que o vento:
por que tudo isso estaria acontecendo? As coisas não poderiam ter sido mais fáceis? E agora? Ele, no carro, ela no hospital, a lembrança daquelas máquinas monstruosas de prolongar a vida não lhe saíam da memória... As lágrimas corriam, misturadas à poeira do vento seco do caminho.

Revoltado com tudo isso, parou o carro no acostamento. Encontrou uma
estradinha de terra. Devagar, como a seguir um féretro, entrou pela rota dos sitiantes. Subiu devagar a montanha, encontrou um mirante. Parou, abriu a
porta, e, num grito de dor e lamento, chorou. Ah, como chorou! Seu pranto
escorria pela porta do carro. Os pássaros, assustados, aquietaram-se nas árvores, contemplando aquele misto de dor e revolta. Parecia que todo o mundo fazia silêncio em respeito a tanta dor.

- Deus, por que? Por que? Por que? Por que tive que amá-la? Por que tive que vê-la? E agora, Senhor, o que fazer? E se tu a levares? O que será de mim? Eu já estava quase esquecendo, Senhor! Agora tudo volta a doer! Senhor, Senhor...

Cansado de tanto chorar, entrou no carro e deitou-se, estendendo o banco
para o fundo. Travou a porta, colocou uma fita de música clássica e desfaleceu. Ali estava um moço de valor, que amava e que lutava entre sua vontade e a vontade de Deus.

Sonhou durante o sono, no delírio da febre. Sonhou estar na igreja. Viu o pastor a pregar, e, ao seu lado estava Natasha, bonita e sorridente. Lá do púlpito o pastor dizia: "Aquele que amar mais à sua mulher, mais do que a mim, não é digno de mim - palavras de Jesus!" E, aos poucos, o sorriso de Natasha foi sendo coberto por uma neblina e desaparecia. Assim acordou.

Assustado e cônscio de que Deus falara com ele, pôs-se a orar, dizendo:

- Senhor, sei que é difícil, mas tenho que fazer isso. Confesso que estou revoltado, ó, Pai. Quero fazer a minha vontade, não a tua. Eu não estou conseguindo aceitar a tua vontade, caso seja a de levá-la embora! Sei que estou errado, Senhor, e sei que é isso que quisestes me falar. Senhor, sou teu servo e quero te obedecer. Se irás tirar a Natasha mais uma vez, tira-a, apesar de mim. Por mais que isso doa, Senhor, prefiro assim: não quero perder-te Senhor. Só me ajude e console o meu coração... Tu sabes o que será
melhor para ela, e também melhor para mim. Em nome de Jesus, amém.

Voltou a dormir.

Toca o celular.

- Alô?

- Luciano?

- Sim, sou eu.

- Aqui é o pastor, filho. Como você está?

- Bem mal, pastor. Mas sobrevivendo...

- Eu orei por você, garoto. Pedi a Deus para lhe fazer suficientemente forte para renunciar, se preciso for. Você quer conversar sobre isso?

- Pastor - disse, sorrindo o rapaz, - já o ouvi pregar agorinha mesmo no sonho, já renunciei a Natasha. Está doendo, mas estou em paz. Obrigado.

- Ótimo. Então volte pro hospital, Luciano. A Natasha acordou e saiu do estado crítico. Ela quer ver você...

- O QUE??? SÉRIO, PASTOR?

- Séríssimo. Vem com calma, mas acelera, filho...

Não levou hora e meia e Luciano estava entregando a chave do carro pro manobrista do hospital.

- E a Natasha? , perguntou à mãe dela.

- Filho, corre, ela está chamando por você! Vai, filho! Deus está agindo! Eu já a vi, mas ela teima que quer ver-lhe!

Agora o corredor do hospital era longo demais para ele. Se pudesse, daria
três passos em um, para chegar mais rápido e contemplar o rosto de sua amada. Seu coração estava disparado, pensava no que ouviria e no que diria. O suor lhe escorria pela face e as vistas estavam enfumaçadas. Correu a vestir o jaleco, o sapato de pano, as luvas e a máscara. Box 06. Lá estava ela, e três médicos palestrando. Ao olharem o rapaz, perguntaram:

- Você é o Luciano?

- Sim, doutor, sou eu. Por que

- Converse um pouco com ela. Ela gritou o seu nome por mais de meia hora e nos
deixou quase loucos! Isso é que é amor! Mas seja breve, ainda não entendemos essa súbita melhora. Temos que medicá-la novamente.

Aproximou-se do leito. Os lábios de Natasha estavam sangrados, a boca ferida, canos haviam saído da garganta, o pescoço estava com fios, braços e pernas com soro, sondas, enfim, uma cena dramática, mas não tanto quanto na última vez. Pelo menos o respirador artificial estava desligado, e em silêncio...

- Lu..cia..no.. me.u...a..mor....

- Fala, querida, eu estou aqui!

- Je..sus....veio..a..qui! Eu..vi!

Luciano deixou as lágrimas verterem de seus olhos, lágrimas quentes e profundas.

- Você estava sonhando, querida.

- Nã..ão, meu ..a..mor, Je..sus veio...me di..zer.. uma..coi..sa!

Um tanto alegre, mas também incrédulo, Luciano pergunta:

- E o que Jesus lhe disse, amor?

- Dis.se...que.. vo..cê..me ama..va e..que..es.ta...va... (cof! cof!) es..ta..va. orando lá..num sí..tio.. por..mim...e ..lu..tan..do ...para me renun..ciar..

Luciano gelou. Natasha completou:

- E..le.. me..dis..se..que..a.ceitou..a.sua..or.a..ção!

Agora ele estava arrepiado. Não só isso, ele estava com as pernas totalmente moles e adormecidas, num misto de medo e perplexidade.

- E sobre você, amor, ele disse alguma coisa?

- Dis.se..pa..ra....que..eu não ...pe..casse.. de nno..vo... - Natasha adormeceu.

- Natasha!!! Natasha!! Não morra!!!

- Calma, garoto - disse o médico - ela só adormeceu. Fique tranqüilo, mas saia agora, temos que seguir os procedimentos necessários.

E assim foi.

Natasha saiu do hospital em 20 dias. Sem explicação convincente, os médicos quiseram impetrar a si mesmos um erro de avaliação e diagnóstico,dizendo que pensaram que havia câncer onde nada existia, mas não sabiam explicar as dúzias de exames, de biópsias, de ressonâncias e de quimioterapias feitas. Claro, grande parte da medicina desconhece o poder de Deus, a misericórdia do Altíssimo. E um câncer desaparecido tem que parecer um mero "erro médico". Mas o milagre acontecera de fato...

Outra tarde, fim de expediente no escritório de Luciano, Natasha de pé em frente à escrivaninha de trabalho dele.

Luciano, de agora em diante eu viverei cada dia como um milagre do Senhor, e
viverei apenas e tão-somente para a glória dele.

- Que bom, Natasha! Espero que você seja feliz! Orarei sempre por você!

- Luciano...

- Fale, querida.

- Quero pedir só mais uma coisa.

- Se eu puder atender...

- Eu quero me casar com você e ser a sua mulher, a sua companheira, e servir ao Senhor ao seu lado. Eu te amo! Me perdoe por tudo que fiz!

Era tudo o que o rapaz queria ouvir. Sorridente, abriu a gaveta da
escrivaninha e tirou uma linda boneca de porcelana, numa casinha de papelão, idêntica à primeira, presenteada quando começaram a namorar. Levantou-se, entregou-lhe a boneca, abraçou sua amada pela cintura, trazendo-a para junto de seu rosto, e lhe disse, com um brilho jamais visto em seu olhar:

- Eu perdôo você e quero recebê-la como minha esposa, amor. Eu te amo!

- Também te amo, querido!

Não se podia descrever o que era mais bonito e brilhante; se o brilho do sol da tarde, clareando toda a sala pelas vidraças, ou se o brilho do beijo de Natasha e Luciano, ao som da mais linda música que o mundo pode ouvir: o palpitar de dois corações apaixonados. Aliás, apaixonados por Deus primeiramente, e, por causa do Senhor, apaixonados um pelo outro...


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O resto?

Bem, essa já será uma outra "PÁGINA SOLTA"...

Ainda tinha muitas coisas que vos escrever; não quis faze-lo com papel e tinta, pois espero ir ter com vosco e conversarmos de viva voz para que a nossa alegria seja completa.
A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós.

Esse texto foi postado em 16/02/2004 no site LETRAS SANTAS (antigo).

CONTO: A Caderneta Vermelha

O carteiro estendeu o telegrama. José Roberto não agradeceu e enquanto abria o envelope, uma profunda ruga sulcou-lhe a testa. Uma expressão mais de surpresa do que de dor tomou-lhe conta do rosto. Palavras breves e incisas: "Seu pai faleceu. Enterro 18 horas. Mamãe."

José Roberto continuou parado, olhando para o vazio. Nenhuma lágrima lhe veio aos olhos nenhum aperto no coração. Nada!

Era como se houvesse morrido um estranho. Por que nada sentia pela morte do velho?
Com um turbilhão de pensamentos confundido-o, avisou a esposa, tomou o ônibus e se foi, vencendo os silenciosos quilômetros de estrada enquanto a cabeça girava a mil.

No íntimo, não queria ir ao funeral e, se estava indo era apenas para que a mãe não ficasse mais amargurada. Ela sabia que pai e filho não se davam bem.

A coisa havia chegado ao final no dia em que, depois de mais uma chuva de acusações, José Roberto havia feito as malas e partido prometendo nunca mais botar os pés naquela casa.

Um emprego razoável, casamento, telefonemas à mãe pelo Natal, Ano Novo ou Páscoa...
Ele havia se desligado da família não pensava no pai e a última coisa na vida que desejava na vida era ser parecido com ele.

O velório: poucas pessoas. A mãe está lá, pálida, gelada, chorosa. Quando reviu o filho, as lágrimas correram silenciosas, foi um abraço de desesperado silêncio. Depois, ele viu o corpo sereno envolto por um lençol de rosas vermelho, como as que o pai gostava de cultivar.

José Roberto não verteu uma única lágrima, o coração não pedia. Era como estar diante de um desconhecido um estranho.

Ele ficou em casa com a mãe até a noite, beijou-a e prometeu que voltaria trazendo netos e esposa para conhecê-la. Agora, ele poderia voltar à casa, porque aquele que não o amava, não estava mais lá para dar-lhe conselhos ácidos nem para criticá-lo. Na hora da despedida a mãe colocou-lhe algo pequeno e retangular na mão:

"- Há mais tempo você poderia ter recebido isto. Mas, infelizmente só depois que ele se foi eu encontrei entre os guardados mais importantes..."

Foi um gesto mecânico que, minutos depois de começar a viagem, meteu a não no bolso e sentiu o presente. O foco mortiço da luz do bagageiro, revelou uma pequena caderneta de capa vermelha. Abriu-a curioso. Páginas amareladas. Na primeira, no alto, reconheceu a caligrafia firme do pai:

- "Nasceu hoje o José Roberto. Quase quatro quilos! O meu primeiro filho, um garotão! Estou orgulhoso de ser o pai daquele que será a minha continuação na Terra!".

À medida que folheava, devorando cada anotação, sentia um aperto na boca do estomago, mistura de dor e perplexidade, pois as imagens do passado ressurgiram firmes e atrevidas como se acabassem de acontecer:

- "Hoje, meu filho foi para escola. Está um homenzinho! Quando eu vi ele de uniforme, fiquei emocionado e desejei-lhe um futuro cheio de sabedoria. A vida dele será diferente da minha, que não pude estudar por ter sido obrigado a ajudar meu pai. Mas para meu filho desejo o melhor. Não permitirei que a vida o castigue".

- "Roberto me pediu uma bicicleta, meu salário não dá, mas ele merece porque é estudioso e esforçado. Fiz um empréstimo que espero pagar com horas extras".

José Roberto mordeu os lábios. Lembrava-se da sua intolerância, das brigas feitas para ganhar a sonhada bicicleta. Se todos os amigos ricos tinham uma, por que ele também não poderia ter a sua?

- "É duro para um pai castigar um filho e bem sei que ele poderá me odiar por isso; entretanto, devo educá-lo para seu próprio bem. Foi assim que aprendi a ser um homem honrado e esse é o único modo que sei de ensiná-lo".

José Roberto fechou os olhos e viu toda a cena quando por causa de uma bebedeira, tinha ido para a cadeia e naquela noite, se o pai não tivesse aparecido para impedi-lo de ir ao baile com os amigos... Lembrava-se apenas do automóvel retorcido e manchado de sangue que tinha batido contra uma árvore... Parecia ouvir sinos, o choro da cidade inteira enquanto quatro caixões seguiam lugubremente para o cemitério.

As páginas se sucediam com ora curtas, ora longas anotações, cheias das respostas que revelam o quanto, em silêncio e amargura, o pai o havia amado. O "velho" escrevia de madrugada. Momento da solidão, num grito de silêncio, porque era desse jeito que ele era, ninguém o havia ensinado a chorar e a dividir suas dores, o mundo esperava que fosse durão para que não o julgassem nem fraco e nem covarde. E, no entanto, agora José Roberto estava tendo a prova que, debaixo daquela fachada de fortaleza havia um coração tão terno e cheio de amor.

A última página. Aquela do dia em que ele havia partido:

"Deus, o que fiz de errado para meu filho me odiar tanto? Por que sou considerado culpado, se nada fiz, senão tentar transformá-lo em um homem de bem? Meu Deus, não permita que esta injustiça me atormente para sempre. Que um dia ele possa me compreender e perdoar por eu não ter sabido ser o pai que ele merecia ter."

Depois não havia mais anotações e as folhas em branco davam a idéia de que o pai tinha morrido naquele momento.

José Roberto fechou depressa a caderneta, o peito doía. O coração parecia haver crescido tanto, que lutava para escapar pela boca. Nem viu o ônibus entrar na rodoviária, levantou aflito e saiu quase correndo porque precisava de ar puro para respirar. A aurora rompia no céu e mais um dia começava.

"Honre seu pai para que os dias de sua velhice sejam tranqüilos!" - certa vez ele tinha ouvido essa frase e jamais havia refletido o na profundidade que ela continha. Em sua egocêntrica cegueira de adolescente, jamais havia parado para pensar em verdades mais profundas. Para ele, os pais eram descartáveis e sem valor como as embalagens que são atiradas ao lixo. Afinal, naqueles dias de pouca reflexão tudo era juventude, saúde, beleza, musica, cor, alegria, despreocupação, vaidade.

Agora, porém, o tempo o havia envelhecido, fatigado e também tornado pai aquele falso herói. De repente... No jogo da vida, ele era o pai e seus atuais contestadores. Como não havia pensado nisso antes? Certamente por não ter tempo, pois andava muito ocupado com os negócios, a luta pela sobrevivência, a sede de passar fins de semana longe da cidade grande, a vontade de mergulhar no silêncio sem precisar dialogar com os filhos.

Ele jamais tivera a idéia de comprar uma cadernetinha de capa vermelha para anotar uma frase sobre seus herdeiros, jamais lhe havia passado pela cabeça escrever que tinha orgulho daqueles que continuam o seu nome. Justamente ele, que se considerava o mais completo pai da Terra?

Uma onda de vergonha quase o prostrou por terra numa derradeira lição de humildade. Quis gritar, erguer procurando agarrar o velho para sacudi-lo e abraçá-lo, encontrou apenas o vazio.

Havia uma raquítica rosa vermelha num galho no jardim de uma casa, o sol acabava de nascer. Então, José Roberto acariciou as pétalas e lembrou-se da mãozona do pai podando, adubando e cuidando com amor. Por que nunca tinha percebido tudo aquilo antes?

Uma lágrima brotou como o orvalho, e erguendo os olhos para o céu dourado, de repente, sorriu e desabafou-se numa confissão aliviadora: -"Se Deus me mandasse escolher, eu juro que não queria ter tido outro pai que não fosse você velho! Obrigado por tanto amor, e me perdoe por haver sido tão cego."

Autor desconhecido.